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Belle - Swing: Primeiras palavras de Belle...

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Primeiras palavras de Belle:

Não sei dizer qual foi o momento exato em que escrever este livro começou a fazer sentido para mim. Eu sempre gostei de escrever. Parte dos meus armários abriga inúmeros manuscritos sobre todo tipo de coisa: crônicas, poemas, artigos e haikais. Mas alguém já disse que poeta que engaveta seus textos não é poeta, o que dizer, então, de um escritor?
Escrever nunca foi um ofício para mim. Como diria Fernando Pessoa, "ser poeta não é minha ambição, é minha maneira de estar sozinho". Acho que até escrever este livro era assim que eu me sentia. Escrevia pela necessidade particular de me tornar indivíduo, de me fazer singular. Lendo os meus próprios escritos, eu podia me visualizar "de fora" e assim me enxergar com novos olhos. Com este livro não foi muito diferente. Cada vez que eu relia uma frase ou capítulo, era um espanto:

- Esta sou eu?

Não parecia parte de mim, mas ao mesmo tempo era absolutamente eu.
Mas por que falar sobre sexo? Por que abordar a questão swing? Bom, sexo faz parte de tudo. Freud já afirmava que tudo que existe na sociedade tem suas raízes nas questões sexuais. As culturas, as religiões, a política, tudo de um modo ou de outro se relaciona com sexo. Seja pela ação sexual, seja pela repressão dessa ação.
No caso do Brasil, é engraçado, porque nos julgamos muito liberais. A mulherada anda pelada na praia, as bancas estampam mulheres em poses escandalosas que mostram "tudo", deixando de ser sexy, tamanho o exibicionismo.
No carnaval, caímos na gandaia e, role o que rolar, há cantores e artistas que falam abertamente sobre suas aventuras, dando destaque especial ao dizer quantas mulheres conseguiram pegar na vida.
Sexo nas capas de revista, nas telas de cinema, nos programas humorísticos de gosto duvidoso, nas piadas e rodinhas, enfim dizem até que somos uma sociedade mais sexuada que a média, bem resolvida e muito liberal.
Mas será verdade? A gente faz sexo pra caramba e ri bastante do assunto, mas será que a gente conversa sobre sexo com toda essa naturalidade?


Sinceramente? Acredito que não. É só dar uma olhada nas cartas enviadas às redações das revistas femininas, para a gente ver que ainda hoje existem muitas dúvidas de "mil novecentos e antigamente". E a opção de escrever anonimamente para as revistas aponta que conversar sobre sexo ainda é um grande tabu. Principalmente para as mulheres.
As dúvidas, as vontades, o desejo de falar, tudo fica lá debaixo do tapete, devidamente escondidinho, que é para não atrapalhar a vida comum das pessoas. Falar sobre sexo fica muito restrito a especialistas, psicólogos, sociólogos e sexólogos. Mas e a conversa do dia-a-dia? E a vontade de perguntar sinceramente para a vizinha:
- Você também sente dor quando faz sexo anal?
Por que as revistas e filmes vendem certas coisas de forma tão glamourosa que a vida real vira mero detalhe? Aí, nós sempre vemos o tema sexo circulando entre refletores, mas não conseguimos deixá-lo natural. Mas o sexo continua aqui, diante de nós, se entrelaçando nas áreas mais diversas da nossa vida. Falar sobre o swing foi uma tentativa de abrir um diálogo. De falar um pouco sobre isso.


Swing nunca esteve tão na moda. De acordo com as informações de uma revista semanal, em apenas um ano, cerca de 50 novas casas de swing abriram em São Paulo. Quase todo mundo já ouviu falar, no entanto, poucas são as pessoas que de verdade sabem do que se trata. Coisa de pervertidos? De desvirtuados? De insanos?
Ou de libertários, ousados, exagerados (no melhor estilo Cazuza de ver a vida)?
Cada qual tem o direito de concluir o que quiser, mas alguém tinha de falar alguma coisa. E eu decidi falar.
Decidi porque quero que um dia, de tanto falarmos das coisas, elas deixem de ser tabus. Quero muito que um dia os diferentes possam ser respeitados em suas opções. Seja orientação sexual, religiosa ou política. As pessoas não precisam ser iguais.


E o que penso é simples assim. As pessoas são simplesmente diferentes. Então, antes que os arautos do bom comportamento resolvam queimar os swingers em praça pública, decidi eu mesma tomar a palavra e dizer quem nós somos de verdade.
Não pretendo ser representante de ninguém. O que exponho aqui são minhas próprias idéias, não a ideologia de um grupo. A tentativa é apenas de tirar o véu que cobre as coisas sobre as quais não temos informações. Só queria dizer: meu mundo é assim.


E por que escrevi este livro usando o pseudônimo Belle? É uma homenagem à Belle de Jour do filme de Buñuel. Nessa história, uma mulher rica e dondoca às pampas passa suas tardes tediosas se prostituindo em um bordel de luxo. O filme é uma crítica à sociedade hipócrita. Diga-se de passagem, tão hipócrita, que se eu escrevesse este livro com meu próprio nome, certamente perderia o emprego, espantaria vizinhos e exporia meus três filhos.
Assim, decidi ser a Belle, não tão corajosa a ponto de me expor por completo, nem tão covarde a ponto de não experimentar aquilo que meu corpo pede. Sou uma mulher como qualquer outra, só não me nego o direito ao tesão que me cabe, nem me culpo por gozar e ser feliz. Ser swinger não mudou e não mudaria a pessoa que eu sou (nem de quem eu sou).
Amo e sou amada. Cuido de meus filhos, dos meus amigos e sou uma ótima profissional. Eu sou feliz! Eu sou inteira!

Belle


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

Belle
Swing: a vida real de uma praticante da troca de casais / Belle. — São Paulo : Matrix, 2007.

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