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Kama Sutra

Kama Sutra - Capítulo I

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Alicia Gallotti


Kama Sutra XXX

As práticas sexuais mais inconfessáveis




Gallotti, Alicia

Kama sutra XXX : as práticas sexuais mais inconfessáveis / Alicia Gallotti ; tradução Márcia Frazão. — São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.



Capítulo I - Psicologia do sexo


Três instintos básicos dirigem a conduta das pessoas: o de conservação, que ajuda a manter a vida; o social, que facilita o relacionamento com outros seres, e o sexual, que assegura a preservação da espécie. Os dois primeiros são aceitos com unanimidade por todos os Grupos sociais como necessidades vitais. Sobre o terceiro pairam dúvidas. E dúvidas que geram medo. E esses medos trazem repressão. Em síntese, é esse então o fio condutor da influência social sobre a vida sexual das pessoas.

São enormes as diferenças de percepção da sexualidade entre os muitos clãs, tribos, sociedades e nações que hoje constituem o planeta. Contudo, salvo poucos grupos que vivem quase totalmente isolados nas selvas amazônicas ou de Papua Nova Guiné, o comportamento sexual humano encontra-se sob os desígnios dogmáticos da moral religiosa ou sofre sua influência. Mais além do instinto natural transmitido geneticamente, a influência do contexto acaba modificando, desviando essas normas naturais a fim de reprimi-las. E é a moral que infunde regras sustentadas pelo medo, pelo conservadorismo e pelos castigos; ela penetra na mente e desenvolve dezenas de barreiras, desde o início da vida até a maturidade.


Os filhos da repressão

Desde o nascimento os valores sexuais são inculcados com mensagens sutis na mente das crianças. Em geral, esse tipo de informação é negativo: não toque aí em você; vire pra lá e não olhe, não diga isso... Nessa primeira fase de formação da personalidade, o sexo aparece como um tema opaco, como se fosse um buraco negro que exerce grande atração mas pode ser visto. Os adultos falam com sigilo e com meias palavras, achando que a criança não entende. E se a criança pergunta alguma coisa, os adultos só fazem aumentar a fábula do mistério: replicam com um balbucio incoerente, transferem a resposta para quando ela for maior ou repreendem com severidade "tamanho atrevimento", como se não fosse bom falar disso. Essa variedade de castrações vai desde a mentira ou a evasiva até o castigo. Nesse clima de obscurantismo, a sexualidade começa a flertar com o proibido. E o proibido se transforma no desejado, ainda mais se é impulsionado por um instinto básico, um instinto natural que, na puberdade, começa a se articular com respostas físicas notórias. Pleno de energia sexual e sem saber o que fazer com ela, o adolescente termina enchendo a mente de contradições. Assim, o sexo proibido e misterioso se vê numa luta aberta com a força natural do desejo transbordante. O adolescente assume essa cachoeira de sensações com dissimulação e culpa porque pensa que o seu apetite sexual é inadequado: a contundente educação repressiva e as mensagens que lhe são transmitidas pelo ambiente repetem seguidamente que ele não deve realizar aquilo que sente, e que, se o fizer, não deve falar. A repressão tem, então, a hipocrisia como última aliada. Com esses valores constrói-se uma sexualidade incompleta, e isso provoca uma satisfação irregular e escassa. Com uma visão tão estreita da sexualidade, é preciso superar inúmeros obstáculos e se desprender dos princípios das doutrinas repressoras para poder evoluir. E logo, vencer o medo da liberdade de escolha e permitir a si mesmo dar e receber prazer sem levar em conta as inibições.



"O proibido se transforma no desejado, ainda mais se é impulsionado por um instinto básico".



O lado negativo são as forças repressivas do ambiente que contribuem para formar a personalidade. Mas a mente da criança e do jovem, que mais tarde será um adulto sexualmente maduro, também passa por experiências e pressões que marcam sua vida sexual futura e lhe permitem descobrir as sensações gozosas, as diferentes intensidades do prazer. Assim, ele começa a orientar seus gostos e suas preferências sexuais. Quanto maior é a liberdade de eleição e de experimentação, maiores são as possibilidades de modelar uma sexualidade livre de preconceitos. Viver a sexualidade de maneira sadia a partir dessas premissas implica em se permitir trocar e variar de jogos eróticos, sem que isso resulte sempre em uma prova traumática que obrigue a um processo interior para superar essa barreira de contenção. É algo mais espontâneo e livre. Em algumas fases, o que mais estimula é olhar; em outras, o desejo é se deixar levar pelas sensações da submissão; em outras, ao contrário, o que mais apetece é mostrar o corpo desnudo, exibir-se sem pudor, ou ver filmes eróticos para atingir o limite da excitação. Tudo depende, então, da situação e do estado de ânimo.

As práticas explicadas neste livro são cotidianas e muito mais próximas do que opressão tenta fazer parecer. Mesmo na intimidade mais profunda, aquela que não se confessa e da qual às vezes nem se tem consciência, porque só é sentida, todos já experimentamos satisfação em situações que consideramos marginais: olhar um corpo nu através de uma janela indiscreta, mostrar o próprio corpo na praia e sentir-se desejada, querer ser a protagonista daquele filme em que a mulher, atada por pés e mãos, desfruta do gelo que molha seus lábios, ou desejar ter o controle da situação para que o amante faça tudo que se lhe pede. Esses desejos reprimidos e bloqueados pelo sentimento de culpa são o melhor aval para compreender que se trata de reações naturais e estimulantes do sexo, como outras tantas. Essas vontades convivem diariamente conosco, embora nos encarreguemos de tapá-las, de passá-las para o lado obscuro da mente, esse espaço interior reservado ao inconfessável.



"Quanto maior é a liberdade de eleição e de experimentação, maiores são as possibilidades de modelar uma sexualidade livre de preconceitos".



A descoberta nasce da comunicação


Para recuperar a boa sexualidade que a repressão nos tirou, é preciso falar sobre esses temas: assumi-los como são, estímulos irrefreáveis da vida cotidiana, e trazê-los à luz na intimidade do casal, compartilhá-los e arrancar sua etiqueta de censura.

Já se disse repetidamente em inúmeras ocasiões que a comunicação entre os amantes é necessária para desenvolver um bom relacionamento e melhorar a sexualidade individual. No caso das práticas sugeridas nestas páginas, tal premissa é indispensável. Conhecer os gostos e a reações, o que incomoda ou desagrada o outro, é o que faz com que os jogos avancem. Todas as práticas descritas neste livro necessitam de uma comunicação entre eles antes, durante e depois de que sejam levadas a cabo. Conversar sobre isso traz luz ao relacionamento: pode-se saber se ela ou ele está de acordo em ser imobilizado ou vendado, ou se o jogo de papéis ou o sexo em grupo está sendo estimulante. Em suma, deve-se aprofundar essas informações para ter consciência de quais são as fantasias ou os medos, e até onde se está disposto a chegar. Essa também é a fórmula mais válida na luta contra a rotina nas relações sexuais.

Assim se limpa o caminho para novas experiências ou para alternativas que possam recriar as práticas anteriores que o casal deseje renovar. A sexualidade contrária à convenção ou à tradição se sustenta em negociações entre as duas partes até que se chegue a um acordo, em que ambos se achem satisfeitos. Tal é a chave-mestra para que o inconfessável não seja uma trava psicológica no desenvolvimento de determinadas práticas sexuais, e que seja simplesmente um estímulo a mais para que a sexualidade compartilhada se torne prazerosa, como os amantes merecem.



"A comunicação entre os amantes é indispensável para desenvolver um bom relacionamento e melhorar a sexualidade individual".





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